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29 de janeiro de 2010

Livro: A Filosofia de Andy Warhol

Um lançamento realmente imperdível de tão divertido é o livro A Filosofia de Andy Warhol: de A a B e de volta a A.
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Com um formato de lata de sopa Campbell's o livro é uma compilação de pensamentos do papa da Pop Art, entremeados por transcrições de conversas telefônicas anotadas por sua fiel colaboradora Pat Hackett, destilando comentários deliciosamente maliciosos.
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No livro, Warhol aborda seus temas favoritos, como dinheiro, trabalho e doces. Já a fama e aquelas estranhas pessoas que idolatram famosos são tratadas com estocadas e ironias mais do que certeiras - atualíssimas.
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Vale lembrar que ainda nos anos 60, Warhol viu, bem ali na Factory, seu estúdio de criações artísticas de NY transformar-se numa meca de peregrinação e de encontros entre "talentos" considerados, no mínimo, imponderáveis pelo mainstream, os chamados "superstars". Foi ali que surgiram o Velvet Underground, Candy Darling, Joe D'Alessandro, Paul Morrissey, Basquiat, que se transformariam futuramente em ícones do rock, do cinema e da pintura contemporânea. Foi também o local que atraiu Valeria Solanas, a feminista radical que deu três tiros no artista plástico.
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Warhol também notabilizou-se como o criador da revista Interview, que ajudou a forjar o atual mundo pop das celebridades instântaneas, num futuro em que todos desfrutariam seus "quinze minutos" de fama. Hoje em que muitos são famosos sem possuírem qualquer talento especial, mas por simplesmente aparecerem na televisão, a filosofia irônica de Warhol - que repete várias vezes que seu sonho era apresentar o próprio programa de TV - soa como uma verdade profética.

21 de janeiro de 2010

Livros: a volta das obras de André Gide

Após permanecerem por mais de uma década sem relançamento (fato lamentado meses atrás por este mesmo blog), obras como as do escritor francês André Gide, autor de Os Moedeiros Falsos e Os Porões do Vaticano finalmente merecem uma digna reaparição nas livrarias.
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Mas melhor notícia ainda é a publicação simultânea de dois livros inéditos do autor no Brasil, dentre eles O Pombo Torcaz e Os Diários dos Moedeiros Falsos. Todos estão sendo lançados pela editora Estação Liberdade, que promete lançar Corydon, O Imoralista, Thèrese, e várias outras obras nunca publicadas entre nós, como os famosos e preciosos Diários.

Uma notícia dessas merece todos os vivas possíveis e imagináveis!

13 de junho de 2009

Livro: Renato Russo - O Filho da Revolução

13 anos após a morte de Renato Russo e o vocalista e líder da banda Legião Urbana continua sendo reverenciado por suas letras de cunho poético, idolatrado por novas gerações que permanecem fiéis ao culto da banda. Renato, levando em conta apenas os milhões de disco vendidos em uma carreira muito bem sucedida, já era um prato cheio para os biógrafos. Existem várias publicações no mercado contando sua conturbada trajetória, descrevendo os altos e baixos da Legião (o momento mais baixo foi a famigerada apresentação num estádio Mané Garrincha lotado, em Brasília), seu alcoolismo e o consumo de outras drogas, além da melancólica morte por Aids.


Para contar novos aspectos da história do compositor, acaba de ser lançada Renato Russo - O Filho da Revolução, obra do jornalista brasiliense Carlos Marcelo que analisa a vida de Renato, sobretudo a sua relação de amor e ódio com Brasília.


É sempre bom lembrar que Renato no começo dos anos 90 tornou-se gay assumido (e militante, através de seus dois primeiros discos solo). O livro não se debruça sobre fofocas de foro íntimo, mas traz várias revelações inéditas. O período da vida do artista numa capital federal sob o poder dos militares é devidamente esmiuçada, por exemplo. Há ainda letras inéditas e vários escritos deixados em documentos nunca publicados antes, contendo confissões, sonhos, paixões e angústias do roqueiro.
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O livro contém mais de cem entrevistas e os depoimentos de Dado Villa-Lobos, Herberth Vianna, Dinho Ouro Preto, Tony Bellotto, Millôr Fernandes, Ney Matogrosso e de vários amigos anônimos do cantor. Pode não ser uma biografia definitiva, mas já é um item obrigatório para os seus muitos admiradores.
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8 de maio de 2009

Livro: Obras Completas de Roberto Piva, Vol. 1 e 2

A Editora Globo vem relançando em vários volumes a obra poética completa de um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, o surrealista Roberto Piva. Vale destacar o cuidado com que tais obras vem sendo editadas, com um acabamento gráfico impecável, análises de especialistas e referências bibliográficas indispensáveis.

O primeiro livro da compilação é Um estrangeiro na legião, que reúne os textos que foram editados originalmente no período entre 1961 e 1964. Estes são: o exórdio de Ode a Fernando Pessoa (1961), os manifestos assinados por "Os que viram a carcaça" (1962), o célebre Paranóia (1963) e Piazzas (1964).

Uma das características que podem ser examinadas nestes primeiros livros dos anos 60, reunidos do volume de estreia, é a liberdade e a libertinagem de versos que se afirmam pelo espírito da transgressão, Piva já nasce um poeta radical e pleno. Sua poética grita contra os alicerces da repressão dos instintos de vida.

O homoerotismo presente em toda a obra de Piva também se destaca nestes primeiros poemas, sobretudo em versos que glorificam precursores como Whitman, Rimbauld e Pessoa, todos poetas igualmente homoeróticos. As alusões às obras destes e de outros poetas muitas vezes vêm unidas a surpreendentes imagens de efebos, como aqueles "anjos de Rilke dando o cu nos mictórios".

O segundo volume, Mala na Mão & Asas pretas foi lançado agora pela Editora Globo, trazendo quatro livros lançados por Piva entre 1976 e 1983: o raro Abra os olhos e diga Ah! (1976), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981) e Quizumba (1983). A reedição na íntegra destes livros vem acompanhada dos manifestos poéticos esparsos que o poeta publicou entre 1983 e 1984. O período marca a maturidade poética de Roberto Piva, que especialmente no livro Coxas experimenta explorar o tênue limite que separa a prosa e a poesia.


"chove sobre a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
........correrias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em volta de minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas"


Roberto Piva, 1961

5 de maio de 2009

Livro: Saint Genet, ator e mártir, de Jean-Paul Sartre

Saint Genet é um extenso e profundo ensaio escrito por Sartre que a princípio serviria de prefácio à edição das obras completas de Jean Genet. O texto acabou ganhando corpo, e que corpo, (são 580 páginas!) e em sua abrangência trata minuciosamente sobre a vida e a obra de um artista incomum, poeta e marginal que se insere na melhor tradição (de Villon e Rimbauld) no contexto da literatura francesa, e ao mesmo tempo rompe com toda familiaridade, impondo um estilo inconfundível e único, que retrata o lado mais avesso ao da sociedade: o mundo do crime, dos marginalizados, dos mendigos, das prostitutas, dos travestis, dos ladrões e dos homossexuais.

Saint Genet: ator e mártir assemelha-se a uma biografia espiritual, e pode ser considerado como uma espécie de bíblia negativa, em que Genet emerge diante do mundo assumindo o papel não apenas de escritor obsceno e escatológico, mas de anjo maldito que traz em si todas as danações como bênçãos, homem marcado pela rejeição social no qual Sartre reconhece, paradoxalmente, o fulcro da santidade

Genet foi entrevistado por Sartre para a realização desta obra, e diversos elementos de seu misterioso passado são revelados e analisados, bem como o seu complexo universo de fantasias e criações. O trabalho foi tão no íntimo do autor, que Genet encontrou sérias dificuldades para continuar escrevendo depois da verdadeira vivissecação que o ensaio de Sartre lhe fez. Ele precisou abandonar os romances e se dedicar apenas ao teatro para continuar como autor. E chegou a pensar em destruir o ensaio, ateando-lhe fogo.

Felizmente isso não aconteceu. O livro é uma longa e digressiva especulação existencialista sobre uma experiência radical, a de Jean Genet, que começou a escrever para excitar-se e estimular-se à masturbação, já que, preso na colônia penal de Mettray, vivia isolado em sua cela (como um monge).

Todos os temas de Genet, bem como suas obsessões pessoais mais surpreendentes (a sacralização da traição, da sodomia e do crime) são investigados de modo implacável por Sartre, que aplica aqui todos os seus poderes intelectuais e de escritor em busca da verdade. O leitor se vê, página após página, como um cúmplice poético de dois grandes gênios da contramão, o existencialista e o pária.

16 de abril de 2009

Livro: Todos os corpos de Pasolini

Durante anos a grande questão envolvendo o famoso cineasta italiano morto, era "quem matou Pasolini?" - indagação até hoje não respondida, já que o suposto único culpado pelo assassinato, o garoto de programa Pelosi, 30 anos após a condenação pelo crime, surpreendentemente veio a público revelar que, ao contrário do que sempre afirmara, não fora o único envolvido na morte do poeta e cineasta.

Pelosi finalmente quebrou o silêncio sobre o crime e afirmou que todos os que antes poderiam ameaçar sua vida hoje estão "mortos ou velhos demais". Mas as provas materiais que poderiam levar aos criminosos estão todas perdidas e ficou patente a falta de interesse da polícia italiana em conduzir as investigações.

Pier Paolo Pasolini foi um dos mais polêmicos e também um dos maiores poetas, críticos, ensaístas, romancistas, estetas e cineastas do século XX. Sua obra completa é um universo imenso, com mais de 16 mil páginas de poemas, romances, contos, crônicas, ensaios, peças, roteiros e cartas, sem contar seus 26 filmes, e uma grande quantidade de desenhos, pinturas, traduções, entrevistas e performances. A riqueza de seu legado é fascinante.

O adjetivo pasoliniano ficará para sempre associado a uma estética humanista e antiburguesa, que buscará manifestações da sacralidade entre os corpos do subproletariado, expressando um franco erotismo através de um estilo inovador, que busca a "verdadeira poesia", tanto na vida como no cinema.

O livro concentra muitos Pasolinis: o da juventude na província, o intelectual militante de esquerda, o filho obcecado pela mãe e inimigo do próprio pai, o homossexual réprobo que será expulso do PCI, o cineasta inovador, o poeta que resgatará o idioma friulano do desprezo voltado aos falares camponeses pelos fascistas... São muitos os olhares e as indagações que uma obra tão criativa e radical despertam.

O autor do livro é Luiz Nazário, crítico e escritor de origem italiana nascido em São Paulo, que estudou na Alemanha e em Israel, doutor em História pela USP e colaborador na imprensa, com vários livros, artigos e ensaios publicados. Valendo-se de excertos de cartas, entrevistas, poemas, diários, anotações, roteiros e romances de Pasolini, além da extensa pesquisa bibliográfica, Nazário faz uma análise minuciosa, psicanalítica, crítica, à desafiadora obra pasoliniana, revê seus filmes e narra detalhes cruciais da biografia do artista, analisa a coerência de seu posicionamento ético e estético diante da vida, seu desprezo pela moral e valores burgueses, sua fixação por um mundo primitivo, pré-cristão, pré-civilizatório, mítico, quando todas as instâncias do corpo e da vida estavam ligadas ao sagrado.

Um livro magistral, lindíssimo, denso, terrível, incisivo, obrigatório. Como os filmes de Pasolini:


15 de abril de 2009

Livro: Tom Of Finland XXL

A editora alemã Taschen está lançando Tom Of Finland XXL, um digno volumão (29 por 40,5 cm) com a obra completa de Tom Of Finland. São 666 páginas contendo mais de mil imagens criadas pelo artista durante seis décadas de produção.

Esta compilação só foi possível graças ao levantamento completo da obra de Tom Of Finland, junto a colecionadores da Europa e da América, incluindo inúmeros desenhos, esboços e pinturas jamais reproduzidos em qualquer outro livro.

Vale destacar que mesmo obras muito conhecidas aparecem aqui em seu contexto original, já que pela primeira vez estão postas em sequência de acordo com as intenções e propostas artísticas originais do seu criador.

Todo o talento do artista vem à tona através das imagens elegantes que retratam com uma franqueza incomparável o prazer sexual entre homens, mas também está presente nas sensíveis cenas de amor quando Tom dedica-se a homenagear as vítimas da epidemia da Aids.

Além das imagens impressionantes, o livro está recheado de ensaios de intelectuais, escritores ou artistas como Camille Paglia, John Waters, Armistead Maupin e outros, além de vir com uma análise detalhada de certos trabalhos pelo historiador de arte Edward Lucie-Smith.

Alguns trechos da obra:


14 de abril de 2009

Mário Faustino: O homem e sua hora

A obra de um dos maiores poetas brasileiros padece de um problema sério: é praticamente desconhecida. Trata-se de um poeta erudito, com um quê de profético tanto em sua curta vida quanto em sua magnífica poesia, marcada pela paixão (homoerótica) e pela atração pela morte, um de seus temas mais constantes.

A única explicação para o olvido de uma poética tão densa pode ser a seguinte: o piauiense Mário Faustino morreu muito precocemente (aos 32 anos), num acidente de avião no Peru, em 27 de novembro de 1962. Até então só havia publicado um livro de poemas, a sua grande estreia O Homem e sua hora (1955), livro relançado em 2004 pela Companhia das Letras.

Faustino era já bastante conhecido por sua coluna Poesia Experiência publicada no Jornal do Brasil de 1952 a 1958, lida por todos que faziam poesia neste país. Foi um dos primeiros críticos a apoiar as inovações do Concretismo, embora não renunciasse como os concretistas ao verso, que continuaria a cultivar genialmente em seus próprios poemas. Foi um crítico muito contundente contra os poetastros, definindo seus defeitos com argumentos cortantes, e exigia precisão, conhecimento de causa e domínio da palavra por parte de todos os fabricantes de versos.

O relançamento sua poderosa obra poética e crítica pela Companhia das Letras pode servir para formar novos leitores entre a atual geração. Há ainda Mário Faustino - uma biografia, lançada em Belém do Pará, excelente ensaio documentado e ilustrado para os que desejam se aprofundar no conhecimento da vida do poeta. A autora, Lilia Silvestre, narra em detalhes a formação intelectual, a erudição, a amizade com o filósofo Benedito Nunes, o trabalho como jornalista, o envolvimento passional com a poesia.

A biografia brilha ainda por não fugir a um assunto que muitos preferem evitar ao relatar a vida de escritores brasileiros famosos: a homossexualidade do poeta, que nela é tratada com atenção e delicadeza. Mário Faustino era discreto, mas assumido. Vivia com um rapaz. Este nunca se envolveu com outro homem após a morte do poeta. Casou-se com uma mulher. Na entrevista reafirma a importância da relação que tiveram para sua vida pessoal: "Eu amava o Mário".


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nascem mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
(Mário Faustino)

3 de abril de 2009

Livro: Corydon, de André Gide

Gide: um dos grandes escritores franceses do século XX, infelizmente caído em esquecimento no Brasil atual, sem novas traduções e sem relançamentos por parte das nossas editoras. Suas obras só podem ser pescadas hoje nos sebos, com bastante sorte.

Os escritos de Gide já foram "a referência" literária, moral, estética, ensaística, crítica e filosófica de uma época. Ao elaborar uma lista pessoal, apontando os seus dez romances preferidos, o poeta Carlos Drummond de Andrade citou Os Moedeiros Falsos, de Gide, como uma de suas escolhas, entre outros grandes livros como As Ligações Perigosas, Dom Quixote, Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido e A Cartuxa de Parma.

Corydon é um ensaio socrático, dividido filosoficamente em quatro diálogos entre dois amigos (um homossexual e um heterossexual) com um claro objetivo: demolir os preconceitos contra o homossexualismo. A princípio Corydon teve uma edição limitada, de pouquíssimos exemplares distribuídos apenas entre o círculo de amigos do autor. Quando finalmente foi lançado, por ser tão direto e tão incisivo em seu tema, Corydon foi tratado com frieza, pois tocava em tabus que a opinião pública evitava a todo custo. Foi só a partir da publicação do livro seguinte, Se o Grão Não Morre, um relato autobiográfico sobre a emancipação moral e sexual que Gide conseguiria escandalizar a sociedade francesa.

Vale lembrar que Gide fora amigo pessoal de Oscar Wilde, mas a recordação da dolorosa condenação de Wilde, longe de desencorajá-lo, acompanhará Gide e será decisiva: dará a determinação necessária ao autor para desafiar a opinião pública. Com seus argumentos brilhantemente controversos e deliberadamente afrontosos, Gide foi o primeiro a contrapor a literatura aos preconceitos de uma época, pondo a ênfase não tanto nas posições políticas, mas na arte do autor.

Em 1947, Gide parou de escrever, mas nunca renegou nada do que escreveu. Corydon permanece como seu livro mais engajado e menos bem-sucedido. O escritor faturou diversos prêmios, entre eles o Nobel de literatura, e obteve o reconhecimento de instituições conservadoras, o que o levou a declarar que tinha razão quando defendia a virtude da minoria.

Outro motivo para se ler Gide, além das razões mais óbvias como a sua indiscutível grandeza literária ou seu teor homoerótico: a sua obra integra o índex de livros proibidos pelo Vaticano desde 1952.