Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

8 de maio de 2009

Livro: Obras Completas de Roberto Piva, Vol. 1 e 2

A Editora Globo vem relançando em vários volumes a obra poética completa de um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, o surrealista Roberto Piva. Vale destacar o cuidado com que tais obras vem sendo editadas, com um acabamento gráfico impecável, análises de especialistas e referências bibliográficas indispensáveis.

O primeiro livro da compilação é Um estrangeiro na legião, que reúne os textos que foram editados originalmente no período entre 1961 e 1964. Estes são: o exórdio de Ode a Fernando Pessoa (1961), os manifestos assinados por "Os que viram a carcaça" (1962), o célebre Paranóia (1963) e Piazzas (1964).

Uma das características que podem ser examinadas nestes primeiros livros dos anos 60, reunidos do volume de estreia, é a liberdade e a libertinagem de versos que se afirmam pelo espírito da transgressão, Piva já nasce um poeta radical e pleno. Sua poética grita contra os alicerces da repressão dos instintos de vida.

O homoerotismo presente em toda a obra de Piva também se destaca nestes primeiros poemas, sobretudo em versos que glorificam precursores como Whitman, Rimbauld e Pessoa, todos poetas igualmente homoeróticos. As alusões às obras destes e de outros poetas muitas vezes vêm unidas a surpreendentes imagens de efebos, como aqueles "anjos de Rilke dando o cu nos mictórios".

O segundo volume, Mala na Mão & Asas pretas foi lançado agora pela Editora Globo, trazendo quatro livros lançados por Piva entre 1976 e 1983: o raro Abra os olhos e diga Ah! (1976), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981) e Quizumba (1983). A reedição na íntegra destes livros vem acompanhada dos manifestos poéticos esparsos que o poeta publicou entre 1983 e 1984. O período marca a maturidade poética de Roberto Piva, que especialmente no livro Coxas experimenta explorar o tênue limite que separa a prosa e a poesia.


"chove sobre a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
........correrias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em volta de minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas"


Roberto Piva, 1961

14 de abril de 2009

Mário Faustino: O homem e sua hora

A obra de um dos maiores poetas brasileiros padece de um problema sério: é praticamente desconhecida. Trata-se de um poeta erudito, com um quê de profético tanto em sua curta vida quanto em sua magnífica poesia, marcada pela paixão (homoerótica) e pela atração pela morte, um de seus temas mais constantes.

A única explicação para o olvido de uma poética tão densa pode ser a seguinte: o piauiense Mário Faustino morreu muito precocemente (aos 32 anos), num acidente de avião no Peru, em 27 de novembro de 1962. Até então só havia publicado um livro de poemas, a sua grande estreia O Homem e sua hora (1955), livro relançado em 2004 pela Companhia das Letras.

Faustino era já bastante conhecido por sua coluna Poesia Experiência publicada no Jornal do Brasil de 1952 a 1958, lida por todos que faziam poesia neste país. Foi um dos primeiros críticos a apoiar as inovações do Concretismo, embora não renunciasse como os concretistas ao verso, que continuaria a cultivar genialmente em seus próprios poemas. Foi um crítico muito contundente contra os poetastros, definindo seus defeitos com argumentos cortantes, e exigia precisão, conhecimento de causa e domínio da palavra por parte de todos os fabricantes de versos.

O relançamento sua poderosa obra poética e crítica pela Companhia das Letras pode servir para formar novos leitores entre a atual geração. Há ainda Mário Faustino - uma biografia, lançada em Belém do Pará, excelente ensaio documentado e ilustrado para os que desejam se aprofundar no conhecimento da vida do poeta. A autora, Lilia Silvestre, narra em detalhes a formação intelectual, a erudição, a amizade com o filósofo Benedito Nunes, o trabalho como jornalista, o envolvimento passional com a poesia.

A biografia brilha ainda por não fugir a um assunto que muitos preferem evitar ao relatar a vida de escritores brasileiros famosos: a homossexualidade do poeta, que nela é tratada com atenção e delicadeza. Mário Faustino era discreto, mas assumido. Vivia com um rapaz. Este nunca se envolveu com outro homem após a morte do poeta. Casou-se com uma mulher. Na entrevista reafirma a importância da relação que tiveram para sua vida pessoal: "Eu amava o Mário".


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nascem mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
(Mário Faustino)