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15 de agosto de 2009


A malfadada entrevista às páginas amarelas da revista Veja dada pela psicóloga Rozângela Justino, que promete "curar" homossexuais, e que compara os manifestantes pelos direitos LGBT com nazistas, inspirou uma carta aberta do jornalista e ex-BBB Jean Wyllis. Que aqui está:
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"Rozângela Justino, eu não a conheço pessoalmente e não faço a menor questão de conhecê-la. Mas, como a senhora fez ataques públicos ao coletivo do qual faço parte, logo, a mim, por meio da revista Veja, eu sou obrigado a responder aos mesmos também de forma pública. Vou começar pela comparação que a senhora fez entre militância gay e Nazismo. Ou a senhora é cínica ou é absolutamente ignorante acerca do mal que o Nazismo causou aos homossexuais. Prefiro apostar que a senhora seja cínica, uma vez que sua referência ao Nazismo e o esforço em associá-lo ao movimento homossexual são tentativas canhestras de conquistar a opinião pública, já que a senhora sabe que, no imaginário popular, o Nazismo se confunde com o mal. Não, minha cara, a militância gay não é Nazismo.
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Se há algum nazista em questão, este é a senhora. Seus comentários referentes à homossexualidade materializam um moralismo e um puritanismo odioso em relação à sexualidade e a modos de vida gay. Logo, seus comentários são bem parecidos com o discurso dos detentores da ordem moral e social e dos apóstolos da religião, da família tradicional e da opressão às mulheres e aos homossexuais. Ou seja, seus comentários são bem parecidos com o discurso das “direitas” religiosas e com o discurso das demais “direitas” (entenda por “direita” os representantes do pensamento e/ou do movimento político que se afina com “restaurações” conservadoras, nacionalismos e fascismos). E qual o discurso das “direitas” religiosas? Ora, aquele que expressa um horror em relação aos homossexuais e certo nojo pela “promiscuidade sexual”, independente de qual seja a orientação sexual do “promíscuo” - um discurso que esteve presente no Nazismo (sim, a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo e os fascismos se expandiram e fascinaram multidões também porque denunciaram as cidades grandes como o lugar dos excessos sexuais dos gays e lésbicas e, logo, como espaço de corrupção de corpos e almas; a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo era uma empresa de “purificação” não só racial, mas, também sexual). Portanto, expressão do Nazismo ou retorno ao mesmo são suas idéias. Não queira convencer os ingênuos do contrário!
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É possível que os oprimidos se identifiquem com a ideologia de seus opressores mesmo sem terem consciência disso. É por isso que podem existir negros racistas e homossexuais moralistas. E é por isso também, minha sé possível, que muitos homossexuais que não resistem às pressões e violências diversas impostas pela ordem em que vivemos tenham procurado seu “consultório” em busca de “cura” para a homossexualidade. A este comportamento nós chamamos de homofobia internalizada. Se a senhora fosse uma psicóloga competente e ética, saberia que os objetivos de uma terapia psicológica não podem ser definidos em termos de mudanças de comportamento do paciente. A cura no sentido de restabelecimento do estado anterior a uma doença é um privilégio da medicina e só existe para patologias provocadas por vírus, bactérias ou fungos ou por disfunções orgânicas e hormonais ou, ainda, para certos tipos de câncer. Homossexualidade não é doença, logo, não precisa de cura.
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Sabe, Rozângela, faltam-lhe argumentos. Vocês, fanáticos fundamentalistas ou cínicos exploradores da fé e ignorância alheias, nunca têm argumentos consistentes além do dogmatismo. Seu bacharelado em Psicologia obtido no Centro Universitário Celso Lisboa de nada lhe serviu ou serve já que você recorre a “verdades” que contrariam os princípios das ciências, inclusive daquela que é a base de seu curso, a Psicologia. Aliás, a qual escola ou corrente teórica da Psicologia a senhora está associada? A senhora não diz, por quê? Ora, porque o que a senhora faz não é Psicologia, mas, doutrinação religiosa.
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Chega a ser risível sua referência a Michel Foucault porque está claro que a senhora nem sua fonte – Claudemiro Soares - compreenderam o pensamento do filósofo francês, que morreria de infarto, se vivo estivesse, ao ver seu pensamento articulado por uma fascista psicótica (sim, qualquer psiquiatra concordará comigo de que sua crença de que recebeu um chamado de Deus por meio do disco de Chico Buarque é sintoma de um funcionamento mental psicótico, em que a senhora toma, como concretos ou reais, elementos apresentados por sua percepção; o chamado divino a que a senhora se refere não é efetivamente real, concreto, mas, a senhora o toma como tal assim como o fazem os psicóticos com seus delírios e alucinações). Sua referência a Focault macula um pensamento muito mais complexo e distante de suas posturas neoconservadoras e quer, por meio de uma aparente ilustração acadêmica, intimidar feministas e homossexuais orgulhosos de sua orientação a se calarem para não questionar o mundo comum no qual devemos viver.
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O que eu posso lhe dizer - a partir das contribuições de Freud, Melanie Klein, Lacan, Foucault, Julia Kristeva, Didier Eribon, dos antropólogos e até dos psiquiatras, contribuições que você não deveria desprezar ou ignorar, já que se diz “psicóloga” - o que eu posso lhe dizer é que os instintos sexuais são naturais, mas, a sexualidade (incluindo, aí, as identidades sexuais) é cultural. Em se tratando de nós, humanos civilizados, pouca coisa em nossa subjetividade (caráter; “alma”; aquilo que nos faz sujeitos) é natural (vem da natureza), pois, ainda na barriga de nossas mães, recebemos o que ele chama de “banho de linguagem”. Desde recém-nascidos, começamos a ser forjados pela cultura. Uma identidade sexual é estruturada de maneira complexa e envolve muitos elementos: desde as experiências de prazer e desprazer na mais terra infância em relação aos pais ou a quem os represente até representações culturais (a maneira como as práticas sexuais aparecem e são qualificadas em tratados científicos; livros religiosos e didáticos; fotos: filmes; propagandas: novelas e etc.), passando por fatores biológicos. A identidade sexual não se confunde necessariamente com a prática sexual. Esta pode ser um componente da identidade sexual, que diz respeito mais a pertencimento; a um “lugar” no mundo. Deu pra entender?
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Veja bem, Rozângela, se a senhora continuar defendendo que o sexo só serve à procriação e, por isso, a homossexualidade é antinatural, eu te sugiro que abra mão o cenário onde você costuma fazer sexo (seu quarto e cama confortáveis) se é que a senhora faz sexo, e vá transar no mato como o fazem os animais; aí, sim, a senhora estará de acordo com o que é "natural". Sugiro que, por extensão, a senhora abra mão de todas as conquistas da cultura: habitação, educação, hábitos alimentares, meios de comunicação, tecnologias, regras de higiene, modos de festejar, artes e beijo na boca, sim, pois, a natureza fez a boca para comer e não para beijar. Abra mão da instituição "família" por que ela também é um fruto da cultura e não da natureza (nunca vi uma cadela de véu e grinalda nem ela ser fiel a um só cão até que a morte os separe; e, se não vi, é porque os cães e cadelas agem conforme a natureza, enquanto mulheres e homens agem conforme a cultura).
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E saiba que o entendimento do que é “família” muda no tempo e no espaço. Ou a senhora nunca ouviu falar de que, no Oriente Médio, um homem pode ter dezenas de esposas ao mesmo tempo e contar com a proteção do estado e com a bênção divina? Parece que não... Então, faça isso e aí, sim, a senhora será coerente com o que prega. Se não o fizer, é só reconhecer que é uma fundamentalista fanática, psicótica e incapaz de questionar aquilo que te ensinaram como "verdade" e, por isso mesmo, causadora de infelicidade para si e para os homossexuais que acredita curar.
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Sem mais, Jean Wyllys"

10 de agosto de 2009

O Homossexualismo não existe

André Gide

Texto de José Castello na revista Bravo! questiona a estética de gênero homossexual. Para ler, basta clicar aqui.

18 de maio de 2009

Lançamento em DVD: Saló (1975), de Pier Paolo Pasolini

Descrever Saló como uma parábola atroz, violenta e escatológica, que critica tanto a estrutura do poder quanto a sociedade de consumo contemporânea não dá uma medida exata do filme. É preciso ver para crer, e o lançamento deste filme escandaloso em DVD no Brasil ajuda a preencher aquela estante meio vazia: a dos filmes realmente polêmicos, que conta com um punhado de filmes extremos, como os memoráveis A Comilança ou então O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e O Amante (ambos disponíveis em DVD no Brasil).
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Este filme é Pasolini em seu momento mais cruel e desesperançado. Ele foi feito pelo cineasta para renegar a sua Trilogia da Vida depois que a indústria cultural, a publicidade e o mercado pornográfico dos anos 70 apropriaram-se do erotismo, transformando o sexo e os corpos nus em mercadorias como outras quaisquer.
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Só um grande cineasta como Pasolini para contar uma história tão terrível, em que um grupo de fascistas (e um cardeal) reúnem-se num castelo da república de Saló para dar início a uma sequência impiedosa de orgias, humilhações, torturas e execuções de jovens de ambos os sexos.

O filme é uma tour de force. Eu o vi quase 20 anos atrás. No início da projeção, o cinema estava lotado. À medida que o filme seguia seu curso, o público ia debandando. Só me lembro, ao final, de ver uns poucos gatos pingados na saída (além de meu irmão e um amigo, alguns raros cinéfilos de estômago forte).
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Saló, Ou Os 120 Dias de Sodoma, o filme de Pasolini inspirado no romance homônimo do Marquês de Sade, é uma das experiências cinematográficas mais radicais, perturbadoras e inesquecíveis que já tive!

9 de maio de 2009

Do Começo ao Fim: novo trailer do filme

Acaba de vazar na rede mais um trailer do polêmico Do Começo Ao Fim, novo filme do cineasta Aluisio Abranches que retrata o amor apaixonado entre dois irmãos (os belos Rafael Cardoso e João Gabriel) que promete causar.

O primeiro trailer vazado e que eu já postei aqui no blog espalhou-se como uma pandemia por todo o mundo virtual, em milhares de sites e blogs. O vídeo teve mais de 25 mil exibições em apenas um dia de circulação, o que dá uma excelente medida do potencial de sucesso para o longa, ainda sem data prevista para estreia.

O novo (e belo) trailer é este aí:



8 de maio de 2009

Filme polêmico feito no Brasil: Do Começo Ao Fim (2009)



Muita polêmica à vista é o que promete o lançamento este ano do longa Do Começo Ao Fim, o novo filme de Aluizio Abranches, diretor de Um Copo de Cólera (1999) e As Três Marias (2002). O filme toca num imenso tabu, o incesto, ao tratar sobre o envolvimento homossexual entre dois irmãos.
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O filme mostra um relacionamento de profundo afeto entre Gabriel e Thomas, a princípio apenas platônico durante a infância dos dois, mas é na vida adulta, logo após a morte da mãe deles (Julia Lemmertz) num acidente de automóvel, que os irmãos (de 21 e 27 anos) vêm a se tornar amantes.
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Não é apenas carinho entre irmãos o que eles sentem, mas amor de verdade. Como se o tema homoerótico fosse pouco para deixar os religiosos de cabelo em pé, Abranches ousa mexer num dos maiores tabus de nossa civilização, o incesto.
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O filme realizado em Buenos Aires e no Rio de Janeiro é a exuberante estreia da produtora Pequena Central, de Marco Nanini e Fernando Libonati e promete dar o que falar.
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O trailer segue aí embaixo:


3 de abril de 2009

Livro: Corydon, de André Gide

Gide: um dos grandes escritores franceses do século XX, infelizmente caído em esquecimento no Brasil atual, sem novas traduções e sem relançamentos por parte das nossas editoras. Suas obras só podem ser pescadas hoje nos sebos, com bastante sorte.

Os escritos de Gide já foram "a referência" literária, moral, estética, ensaística, crítica e filosófica de uma época. Ao elaborar uma lista pessoal, apontando os seus dez romances preferidos, o poeta Carlos Drummond de Andrade citou Os Moedeiros Falsos, de Gide, como uma de suas escolhas, entre outros grandes livros como As Ligações Perigosas, Dom Quixote, Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido e A Cartuxa de Parma.

Corydon é um ensaio socrático, dividido filosoficamente em quatro diálogos entre dois amigos (um homossexual e um heterossexual) com um claro objetivo: demolir os preconceitos contra o homossexualismo. A princípio Corydon teve uma edição limitada, de pouquíssimos exemplares distribuídos apenas entre o círculo de amigos do autor. Quando finalmente foi lançado, por ser tão direto e tão incisivo em seu tema, Corydon foi tratado com frieza, pois tocava em tabus que a opinião pública evitava a todo custo. Foi só a partir da publicação do livro seguinte, Se o Grão Não Morre, um relato autobiográfico sobre a emancipação moral e sexual que Gide conseguiria escandalizar a sociedade francesa.

Vale lembrar que Gide fora amigo pessoal de Oscar Wilde, mas a recordação da dolorosa condenação de Wilde, longe de desencorajá-lo, acompanhará Gide e será decisiva: dará a determinação necessária ao autor para desafiar a opinião pública. Com seus argumentos brilhantemente controversos e deliberadamente afrontosos, Gide foi o primeiro a contrapor a literatura aos preconceitos de uma época, pondo a ênfase não tanto nas posições políticas, mas na arte do autor.

Em 1947, Gide parou de escrever, mas nunca renegou nada do que escreveu. Corydon permanece como seu livro mais engajado e menos bem-sucedido. O escritor faturou diversos prêmios, entre eles o Nobel de literatura, e obteve o reconhecimento de instituições conservadoras, o que o levou a declarar que tinha razão quando defendia a virtude da minoria.

Outro motivo para se ler Gide, além das razões mais óbvias como a sua indiscutível grandeza literária ou seu teor homoerótico: a sua obra integra o índex de livros proibidos pelo Vaticano desde 1952.