20 de março de 2009

Tatuagem

Cama

Lançamento em DVD: O Conformista (1970)

Com uma estupenda fotografia de Victorio Storaro, este é o mais estilizado e admirável dos filmes de Bernardo Bertolucci.

Adaptado de um romance de Alberto Moravia, o filme (de 1970) mostra a trajetória de Marcello Clerici, um homem cujo grande desejo é "ser normal". Ele é cooptado pelos Camisas Negras, e recebe a missão de assassinar um ex-professor, militante antifascista, radicado em Paris, para onde Marcello parte em lua-de-mel com sua noiva.

Interpretado por Jean-Louis Trintignant, o personagem-título é um homem ambíguo e sem convicções políticas, que leva uma enfadonha e decadente existência burguesa, e que é conduzido por um amigo cego ao fascismo. Marcello abraça o fascismo com a mesma rapidez com que o renega quando o ditador Mussolini cai.

As raízes de seu comportamento obsessivo centrado em normalidade parecem decorrer de desejos homossexuais severamente reprimidos. É o que o filme nos sugere através dos flashbacks da adolescência de Marcello. Desejos que finalmente vêm à tona na memorável cena final, em que o personagem se dá conta, tardiamente, do seu grande engano, após viver uma vida inteira conforme os equívocos dos outros.

18 de março de 2009

Clodovil, um arquétipo nacional

De volta aos anos 80. Um pai de família na intenção de fazer rir suas visitas, volta-se para o filho (com menos de 10 anos) e pergunta: "Meu filho, o que o Clodovil é?". A criança diz na bucha: "bicha". Pai e filho provocam gargalhadas nas visitas.

Esta cena eu presenciei na minha própria infância. Ela ocorreu há muito tempo na casa de meus tios. A criança era um primo meu, hoje um homem heterossexual casado. Quando li pela intenet ainda ontem sobre a morte cerebral do estilista e deputado federal Clodovil Hernandez, não pude deixar de pensar nela. A cena, praticamente esquecida, voltou inesperadamente à minha memória, e me assombrou como um velho fantasma.

Me ocorreu subitamente que Clodovil talvez tenha sido a primeira "bicha" oficial em minha infância, aquela figura afetada do qual os pais dos meninos deste país adoram falar mal, fazendo graçolas, contando piadas, simulando desmunhecação, discriminando pela afeminação. Nesse sentido, a figura simbólica de Clodovil ressurge com força. Como uma espécie de arquétipo: ele encarnava a bichona, a bicha-louca, a que era motivo de risos e de repugnância para homens e meninos, futuros machões em estágio larvar. Ele era como a Geni, a patética personagem da música "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque, a que era "boa de apanhar" e "boa de cuspir", a "maldita Geni".

Bicha? Praticamente um sinônimo de Clodovil naqueles tempos em que meninos eram educados para serem machinhos através de um aperfeiçoamento sistemático e gradativo de preconceitos paternos e maternos.

Por outro lado bastava acompanhar Clodovil em seu quadro de moda no programa "TV Mulher", e testemunhar um apresentador com uma língua sempre afiada, para o menino perceber que aquela "bicha" era não apenas um ser ofendido, mas sobretudo, um ser ofensivo. Que atacava ferinamente. Venenosamente. Talvez aquela verve toda fora aguçada ao ponto máximo por instinto de sobrevivência.

Clodovil tripudiava, com esnobismo. Tri-pu-di-a-va. Dizia coisas que feriam. E conquistava desafetos em qualquer meio que adentrasse, fosse a TV, a moda ou a política. Vejamos suas frases agressivas sobre as mulheres, as declarações de que elas andavam muito "ordinárias" e "vulgares", "trabalhando deitadas e descansando em pé": surgem numa época em que os noticiários foram todos varridos pelas duvidosas imagens das mulheres-frutas.

Suas contradições também ficaram famosas. Mesmo considerado um símbolo nacional da "bicha", o estilista jamais assumiria a bandeira gay. Se dizia contra o casamento dos LGBT. Irônico, gostava de dizer frases de efeito contra os outros, mas detestava virar piada. Talvez porque tenha sido alvo delas durante uma vida inteira. Julgado pelo TSE, ameaçado de perder o mandato, obteve uma vitória pouco antes do AVC que o matou.

Uma vez Renato Russo declarou que em nosso país só existiam três bichas assumidas: ele mesmo, Clóvis Bornay e Clodovil. Entendo o que ele queria dizer, especialmente quando leio entrevistas com Bernardo Carvalho ou Miguel Falabella. Os outros "moitam" ou simplesmente evitam rótulos. Com sua morte, o Brasil perdeu sua última "bicha" oficial. Alguém que mesmo sendo alvo de milhões de piadas e xingamentos, manteve a dignidade e jamais calçou as sandálias da "humilhação" que tantos tentam impor aos homossexuais no Brasil.

Vídeo Sexy: Beijo secreto

Olhar


Tatuagens


On The Rocks

O Fantasma

Livro: Giovanni, de James Baldwin

Clássico de temática homoerótica, o romance Giovanni, de James Baldwin, narra um caso de amor descrito em todas as suas fases: a paixão, o convívio, a alegria, a angústia, as crises, o esfriamento e o inevitável afastamento entre dois amantes.

Longe de recorrer aos lugares-comuns banalizados pelo cinema homoafetivo contemporâneo (que se posiciona abertamente com uma política afirmativa de gênero), este é um drama com conotações trágicas que se distancia de clichês românticos, pois o narrador se encontra dividido entre um relacionamento desprendido com uma mulher e por uma densa relação homossexual, que segue por cursos tortuosos e obscuramente marginais, em meio às profundas dúvidas existenciais que o atormentam.

O livro (lançado em 1956) não perdeu seu impacto nem sua força. O autor viveu durante muitos anos em meio à boêmia parisiense, e há alguns inconfundíveis traços autobiográficos em seu romance Giovanni. Baldwin, além de ficionista, foi sobretudo um ensaísta de destaque nos anos 60 e é considerado o primeiro escritor a dizer aos brancos dos EUA como os negros americanos pensavam e sentiam.