6 de abril de 2009
Telenovelas X Gays
Apesar da profusão de personagens gays ou lésbicas nas novelas brasileiras, beijos ou qualquer contato físico mais íntimo entre pessoas do mesmo sexo são tratados como tabus, impensáveis de ser mostrados na tevê. Quem não se lembra do fiasco da novela América, de Glória Perez? A própria novelista divulgou em seu blog que haveria a filmagem da cena de beijo entre dois personagens. Cena devidamente limada na montagem final. Os dois atores aproximavam o rosto, mais e mais. E corta. O beijo foi censurado. Houve censura interna. Da TV Globo.Enquanto no Brasil a TV se mostra excessivamente pudica, na Europa e nos EUA as coisas não são bem assim. Diversas minisséries e telefilmes não apenas mostram beijos entre pessoas do mesmo sexo: os protagonistas muitas vezes participam de cenas com teor (homos)sexual bastante apimentado. Basta lembrar das séries homossexuais Queer As Folk e The L Word ou até mesmo da bobinha e adolescente Dawson's Creek, que mostrou (timidamente, mas mostrou) um selinho entre rapazes.
Resta uma pergunta: afinal, se as vidas íntimas dos homossexuais são tão chocantes assim e se perturbam os valores do público brasileiro, por que então pôr homossexuais em cena? Não seria menos arriscado (em relação à audiência) mostrar uma trama em que o heterossexualismo é a única forma de amar?
Os autores dizem que põem gays nas novelas para lhes dar "visibilidade" e assim diminuir os preconceitos da sociedade contra eles. Ora, visibilidade é o que os personagens gays das novelas não tem. Suas intimidades são suprimidas, veladas, proibidas. A meu ver, o único elemento que se torna visível e patente nas telenovelas é o preconceito das próprias emissoras: quando há algum conteúdo homoerótico nos seus produtos de teledramaturgia ele será casto ou caricato.
Muitos gays gostam de ver novelas de TV. Não é o meu caso. Detesto hipocrisia.
4 de abril de 2009
3 de abril de 2009
Rapto

se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
(...)
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.
Carlos Drummond de Andrade. "Rapto"
Livro: Corydon, de André Gide
Gide: um dos grandes escritores franceses do século XX, infelizmente caído em esquecimento no Brasil atual, sem novas traduções e sem relançamentos por parte das nossas editoras. Suas obras só podem ser pescadas hoje nos sebos, com bastante sorte.Os escritos de Gide já foram "a referência" literária, moral, estética, ensaística, crítica e filosófica de uma época. Ao elaborar uma lista pessoal, apontando os seus dez romances preferidos, o poeta Carlos Drummond de Andrade citou Os Moedeiros Falsos, de Gide, como uma de suas escolhas, entre outros grandes livros como As Ligações Perigosas, Dom Quixote, Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido e A Cartuxa de Parma.
Corydon é um ensaio socrático, dividido filosoficamente em quatro diálogos entre dois amigos (um homossexual e um heterossexual) com um claro objetivo: demolir os preconceitos contra o homossexualismo. A princípio Corydon teve uma edição limitada, de pouquíssimos exemplares distribuídos apenas entre o círculo de amigos do autor. Quando finalmente foi lançado, por ser tão direto e tão incisivo em seu tema, Corydon foi tratado com frieza, pois tocava em tabus que a opinião pública evitava a todo custo. Foi só a partir da publicação do livro seguinte, Se o Grão Não Morre, um relato autobiográfico sobre a emancipação moral e sexual que Gide conseguiria escandalizar a sociedade francesa.
Vale lembrar que Gide fora amigo pessoal de Oscar Wilde, mas a recordação da dolorosa condenação de Wilde, longe de desencorajá-lo, acompanhará Gide e será decisiva: dará a determinação necessária ao autor para desafiar a opinião pública. Com seus argumentos brilhantemente controversos e deliberadamente afrontosos, Gide foi o primeiro a contrapor a literatura aos preconceitos de uma época, pondo a ênfase não tanto nas posições políticas, mas na arte do autor.
Em 1947, Gide parou de escrever, mas nunca renegou nada do que escreveu. Corydon permanece como seu livro mais engajado e menos bem-sucedido. O escritor faturou diversos prêmios, entre eles o Nobel de literatura, e obteve o reconhecimento de instituições conservadoras, o que o levou a declarar que tinha razão quando defendia a virtude da minoria.
Outro motivo para se ler Gide, além das razões mais óbvias como a sua indiscutível grandeza literária ou seu teor homoerótico: a sua obra integra o índex de livros proibidos pelo Vaticano desde 1952.
Lançamento em DVD: If... (1970)
Um dos melhores filmes de todos os tempos está sendo lançado em DVD no Brasil pela Lume Filmes: trata-se do magnífico If... (1970), do cineasta bissexto Lindsay Anderson.
If... marcou época ao satirizar impiedosamente o rígido sistema de educação pública da Inglaterra, e é visto como uma espécie de catalisador da contracultura dos anos 60, tendo sido filmado na mesma época em que os estudantes franceses, em maio de 68, tomaram Paris.
Poucos sabem que If... é praticamente uma refilmagem do alucinado Zero de Conduta, clássico de Jean Vigo (também disponível em DVD no Brasil) sobre uma rebelião num internato. Assim como o filme francês, If... está repleto de cenas surreais surpreendentes.
Grande parte do que nos é mostrado no filme provavelmente se dá como a manifestação de desejos latentes. If... é um filme controverso e revolucionário, que nos acena com possibilidades selvagens e libertárias como reações inconformistas a um ambiente castrador.
Questões polêmicas como rebelião juvenil, pedofilia e homoerotismo (já presentes no original de Vigo, nos anos 30), explodem na tela, conflagrando a instituição escolar como uma terrível zona de conflitos e o poderoso imaginário juvenil como um campo de batalha.
Este é um filme absurdo, genial, impactante, e simplemente imperdível. Algumas cenas:



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