11 de março de 2009
Lançamento em dvd: Antes do Anoitecer
Finalmente lançado Antes do Anoitecer (2000) no Brasil em um único dvd, com capa original (antes o filme só podia ser encontrado num dvd em que dividia espaço com Hoffa), obra do artista plástico e cineasta Julian Schnabel, realizador de Basquiat (1996) e do premiado O Escafandro e a Borboleta (2007).Antes do Anoitecer baseia-se na autobiografia de Reinalo Arenas, Antes que Anoiteça (lançada no Brasil pela Record) e é uma poética e emocionalmente poderosa cinebiografia, descrevendo a trajetória do escritor cubano nos anos em que sofreu na pele a discriminação contra os homossexuais adotada pela política castrista.
O filme mostra diversas fases da vida de Reinaldo Arenas. A infância pobre no interior, quando Reinaldo (como as crianças do sertão nordestino) comia barro para disfarçar a fome, seus primeiros poemas, escritos nos troncos das árvores, derrubadas a machadadas pelo seu avô (que considerava poesia coisa de fresco). A fuga da casa materna para aderir ao movimento revolucionário que derrubaria o ditador Fulgêncio Batista e levaria Fidel Castro ao poder. A errática vida sexual (Reinaldo afirmava ter transado com cinco mil homens). O interesse crescente por literatura. A amizade com o escritor José Lezama Lima. A publicação de seus livros. A prisão e a fuga da cadeia, que desencaderia uma perseguição implacável ao escritor e à proibição de sua obra em território cubano. O exílio, a miséria e a aids nos Estados Unidos.
Schnabel revela uma sensibilidade incomum, por vezes dolorosa, por vezes lírica, ao filmar todos estes episódios. E o ator Javier Bardem está simplesmente primoroso. Sua performance foi elogiadíssima pela crítica e por amigos pessoais de Reinaldo, como o escritor Cabrera Infante. Um filme absolutamente imperdível.
A legítima defesa da "honra"
O número de assassinatos de homossexuais no Brasil cresceu 50%, segundo levantamentos divulgados pelo GGB (Grupo Gay da Bahia). Tais números constam como dados preliminares do relatório anual sobre intolerância no país, que o GGB antecipou, a pedido da Secretaria de Estado Norte Americana.
O levantamento revela que em 2008 houve o assassinato de 186 homossexuais. Praticamente 50% a mais que 2007, quando foram registradas 122 mortes. Mas outros dados ainda devem ser contabilizados, o texto aguarda sua finalização, ou seja: essa estatística pode crescer ainda mais.
Vale destacar ainda que a Secretaria Norte Americana recolhe esses dados junto ao GGB pois as chamadas autoridades brasileiras não tem sequer dados oficiais sobre o assunto, o que apenas reforça a opinião dos militantes sobre o descaso oficial em relação ao tema. Os números apresentados serão usados no Congresso Norte-Americano, que anualmente divulga dados sobre a discriminação por orientação sexual que ocorre nos países com quem os Estados Unidos mantêm relações diplomáticas.
Pernambuco é o estado com o maior índice de crimes: 27 assassinatos, seguido logo de perto pela Bahia, com 23, e por São Paulo, com 19 mortos. O GGB afirma que o Brasil é o campeão mundial em homicídio de homossexuais. Com o agravante de que nem 10% dos criminosos chega a ser preso, geralmente alegando a legítima defesa da honra para justificar os seus crimes.
Tudo isso me faz lembrar dum poema de Eugénio de Andrade, o belíssimo e indignado Réquiem para Pier Paolo Pasolini:
Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Saló, não se importariam de
assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto,
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.
10 de março de 2009
Bernardo Carvalho diz que "gay não lê"
"A literatura é a possibilidade de escapar de um lugar no mundo, que é humano e restrito. Nenhum livro meu deixa de ter relação homossexual. Mas não quero o rótulo. Se você o aceita, funciona mercadologicamente. Não sei se explodiria, até mesmo porque gay não lê. O meio gay não é especialmente letrado. Serei assassinado por dizer isso", afirmou o escritor Bernardo Carvalho.Será verdade que os gays não lêem? Talvez se possa até argumentar que os gays brasileiros não tenham tanto esse hábito porque o brasileiro em geral não cultive muito a leitura. Porém, desconfio que Bernardo Carvalho tenha uma parcela de razão. Gays, com raríssimas exceções, se dedicam aos prazeres da literatura. Preferem os diversos prazeres mundanos. A literatura (e não falo só de literatura gay, mas da literatura, simplesmente) demanda solidão para ser apreciada. Quantos gays hoje estão dispostos a sacrificar boa parte de seu tempo frequentando bibliotecas, sebos ou livrarias e não festas, baladas, academias, bares, saunas e praias - que hoje se tornaram os points associados a uma "cultura gay"?
Por outro lado, acho muito chato que Carvalho, um excelente crítico (infelizmente ele não publica mais sua coluna na Folha) e bom escritor contemporâneo, cujos romances são predominantemente homoeróticos, desconverse tanto e sempre rejeite o rótulo de gay. O escritor Alan Hollinghurst, inglês, autor dos magníficos A Biblioteca da Piscina e A Linha da Beleza (que virou minissérie) não me parece tão cheio de dedos quando o assunto é homossexualismo. De resto isso é um defeito de escritores brasileiros famosos. Não se trata de deixar o armário, mas de ser francos a respeito de certos temas. Eles vivem em cima do muro e adotam discurso neutro. João Silvério Trevisan é o único que dá maior visibilidade ao tema, com posicionamento claro, evidente. Não que essa "neutralidade" reduza o valor dos livros de Bernardo Carvalho, mas com certeza, tira o brilho do escritor. Será que no Brasil nunca teremos um escritor com a grandeza moral de um Gide?
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